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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas » Capítulo III – Comunicações Espíritas » Comunicações Espíritas

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Toda manifestação que revela uma intenção ou uma vontade é, por isso mesmo, con­forme dissemos, inteligente num grau qualquer. É, pois, uma qualificação genérica, que distingue essas espécies de manifestações daquelas puramente materiais. Quando o de­senvolvimento dessa inteligência permite uma troca continuada de idéias, obtêm-se comunicações regulares, cujo caráter permite julgar o Espírito que se manifesta. Segundo sua natureza e seu objetivo, serão elas frívolas, grosseiras, ou instrutivas[1]. Esta distinção é de grande importância, porque é por ela que os Espíritos nos revelam a sua su­perioridade ou a sua inferioridade. Conhecem-se os homens por sua linguagem: dá-se o mesmo com os Espíritos. Ora, quem quer que esteja bem compenetrado das qualidades distintivas de cada uma das classes da escala espírita, poderá sem dificuldade assinar a cada Espírito que se apresenta a classe que lhe convém, bem como o grau de estima e de confiança que merece. Se a experiência não viesse em apoio a esse principio, bastaria o simples bom senso para o demonstrar. Assim, estabelecemos como regra invariável e sem exceção que a linguagem dos Espíritos sempre está na razão de seu grau de elevação.
O Espírito realmente superior é sempre grave, digno e nobre; sublime, quando o assunto o exige; não só dizem apenas coisas boas - dizem-no em termos que excluem de modo absoluto toda trivialidade. Por melhores que sejam as coisas, se elas forem manchadas por uma única expressão que denote baixeza, temos um sinal inconteste de inferioridade, com mais forte razão, se o conjunto da comunicação fere as conveniências por sua grosseria. A linguagem revela sempre a sua origem, quer pelo pensamento que traduz, quer pela forma que o reveste; assim, mesmo que um Espírito nos quisesse iludir quanto à sua pretensa superioridade, basta conversar um pouco com ele para lhe co­nhecer o estofo. O fato que se segue repetiu-se muitas vezes no curso de nossos longos e numerosos estudos. Entretínhamo-nos com um Espírito cujo caráter e linguagem nos eram conhecidos; um outro Espírito, mais ou menos elevado, achava-se presente; sem que ninguém o chamasse, meteu-se na conversa. Ora, antes que tivesse declinado o seu nome, a diferença de estilo tornou-se tão patente que cada um disse imediatamente: “Não é mais Fulano quem está falando”. Não é outro o modo de julgar entre os homens. Basta ouvi-Ias; não é necessário os ver. Suponhamos que na sala vizinha àquela em que estamos se encontrem várias pessoas que não conhecemos e não podemos ver; pela sua conversa poderemos julgar a todos e dizer se são gente rústica ou fina, ignorantes ou sábios, malfeitores ou gente honesta. 
A bondade e a benevolência ainda são atributos essenciais dos Espíritos depurados: não têm ódio aos homens, nem aos outros Espíritos; lamentam as fraquezas, criticam os erros, mas sempre com moderação, sem azedume nem animosidade. Isto quanto à mo­ral. Podemos igualmente julgá-las pela natureza de sua inteligência. Um Espírito pode ser bom, benevolente só ensinar o bem e ter conhecimentos limitados, porque nele o desen­volvimento ainda é incompleto. Não falamos dos Espíritos notoriamente inferiores: com estes seria uma perda de tempo pedir explicações sobre certas coisas; seria o mesmo que perguntar a um colegial o que pensa de Aristóteles ou do sistema do universo. Mas alguns há que, sob certos pontos de vista, parecem esclarecidos, ao passo que sobre outras questões acusam uma ignorância absoluta pelas mais absurdas heresias científi­cas. Este raciocinará muito sensatamente sobre um ponto, mas será desarrazoado sobre outro. É ainda como entre nós: um astrônomo é sábio no que concerne aos astros e pode ser muito ignorante em arquitetura, em música, em pintura, em agricultura, etc. Evidente­mente tudo isto denota um desenvolvimento imperfeito, o que não quer dizer que se trate de um Espírito mau.
Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é necessário, de saída, saber julgar-se a si próprio. Infelizmente há muita gente que toma a sua opinião pessoal como medida exclusiva do bom e do mau, do verdadeiro e do falso: tudo quanto contradiga a sua maneira de ver, as suas idéias, o sistema que conceberam ou adotaram, aos seus olhos é mau. Evidentemente a tais criaturas falta a primeira qualidade para uma sã apreciação - o reto julgamento. Mas elas nem o suspeitam. E isto é uma falta sobre a qual mais se iludem. 
Geralmente se pensa que, interrogando o Espírito de um homem que na Terra foi cientista em certa especialidade, obter-se-á a verdade com mais segurança. Isto é lógico, mas nem sempre é verdadeiro. Demonstra a experiência que os cientistas, bem como os outros homens, sobretudo aqueles que recentemente deixaram a Terra, ainda se acham sob o império dos preconceitos da vida corpórea; não se desfazem imediatamente do espírito de sistema. Pode, pois, acontecer que, sob a influência das idéias que acariciaram em vida, e das quais fizeram um título de glória, vejam menos claro do que supomos. Não damos este princípio como regra absoluta; apenas dizemos que isto se vê e que, conseqüentemente, nem sempre sua ciência humana é urna prova da infalibilidade como Espírito. Aqueles que, como por vezes acontece, condenam, como Espíritos, as doutrinas que haviam sustentado como homens, dão assim uma prova de elevação. Regra geral: O Espírito é tanto menos perfeito quanto menos desprendido da matéria. Toda vez, pois, que se reconhece nele a persistência das idéias falsas que o preocupavam em vida, sejam elas de ordem física ou de ordem moral, temos um sinal infalível de que ele não está completamente desmaterializado. 
A tenacidade das idéias terrenas é tanto maior quanto mais recente a morte. No momento da morte a alma se acha sempre num estado de perturbação, durante o qual ape­nas se reconhece; é um despertar incompleto. Suas constantes respostas são: Não sei onde estou; tudo é confuso para mim. Por vezes se lastimam por terem sido desorganizadas tão cedo; outras dizem cruamente que as deixem tranqüilas e, conforme o cará­ter, exprimem esse pensamento em termos mais ou menos corteses. Muitos não crêem que estejam mortos - principalmente os supliciados, os suicidas e, em geral, os que so­frem morte violenta: vêem seu corpo; sabem que este lhes pertence e não compreendem que do mesmo se achem separados. Isto lhes causa espanto, é-lhes necessário algum tempo para se darem conta de sua nova situação. Assim, a evocação não pode ser feita nesse momento senão com o objetivo de estudo psicológico. Mas não é o caso de se lhes pedirem informações. 
Este estado de confusão que pode ser comparado ao estado transitório do sono à vi­gília, persiste mais ou menos tempo. Temos visto alguns que se acham completamente desprendidos ao cabo de três ou quatro dias e outros que ainda não estavam depois de vários meses. Acompanha-se com interesse sua marcha progressiva; assiste-se, de certo modo, o despertar da alma; as perguntas que lhes são dirigidas, desde que feitas com certa medida, prudência, circunspecção e benevolência, os ajudam até a se desvencilha­rem. Se sofrem e nos apiedamos de sua dor, sentem-se aliviados. Quando a morte é na­tural, isto é, quando se dá pela extinção gradual das forças vitais, a alma já se acha em parte desligada antes da cessação completa da vida orgânica e se reconhece mais pron­tamente. Dá-se o mesmo com os homens que, em vida, se elevaram pelo pensamento acima das coisas materiais. Desde este mundo eles pertencem, de certo modo, ao mundo dos Espíritos; a passagem de um a outro se dá rapidamente e a perturbação é de curta duração.
Uma vez desprendida dos restos de sua roupagem corpórea, encontra-se a alma em seu estado normal de Espírito: só então é que pode ser julgada, por isso que se mostra verdadeiramente como é; suas qualidades e defeitos, suas imperfeições e preconcei­tos, suas prevenções e idéias falsas, mesquinhas ou ridículas, persistem sem modificação durante todo o período de sua vida errante, ainda que seja de mil anos; é-lhe necessário atravessar um novo crivo da vida corpórea a fim de aí deixar algumas de suas impurezas e elevar-se mais uns degraus. Vimos alguns que, depois de duzentos anos de vida erran­te, ainda tinham as manias e as pequenezes que se lhes conheciam em vida, ao passo que outros quase que imediatamente demonstram uma grande superioridade.
A propósito do estado de transição que acabamos de descrever, temos falado de Es­píritos sofredores. Naturalmente perguntarão se esse momento é doloroso. Não entra no nosso plano abordar a questão do sofrimento dos Espíritos, nem, sobretudo, examinar a natureza desse sofrimento. Esta questão terá seu lugar na Revista. Limitar-nos-emos, pois, a dizer que para o homem de bem, para aquele que dorme na paz de uma consciência pura e não teme nenhum olhar perscrutador, o despertar é sempre calmo, suave e pacífico; para aquele cuja consciência se acha carregada de erros, para o homem materi­al que pôs todas as suas alegrias na satisfação de seu corpo, para aquele que mal apli­cou os favores concedidos pela Providência, é terrível. Sim, esses Espíritos sofrem assim que deixam a vida; sofrem muito e esse sofrimento pode durar tanto quanto a sua vida errante. Tal sofrimento poderá ser apenas moral, mas nem por isso será menos pungente, porque nem sempre lhes é dado ver o seu termo. Sofrem até que um raio de esperança venha brilhar aos seus olhos, e essa esperança podemos fazê-la nascer em conversa com eles. Boas palavras, testemunhos de simpatia são para eles um alívio, para o que podem concorrer os bons Espíritos que chamamos em nosso auxílio, a fim de ajudar as nossas intenções.
Um suicida evocado pouco depois de sua morte nos descrevia as suas torturas. 
- Quanto tempo durará isto? perguntamos. 
- “Nada sei; e é isto que me desespera”.  Um Espírito superior que se achava presente disse, então, espontaneamente:
- “Isto durará até o termo natural de sua vida, voluntariamente interrompida”. 
- “Obrigado”, disse o outro, “por isto que este que aí está me acaba de informar”. 
Terminaremos este capítulo por uma observação essencial. O quadro que acabamos de traçar não resulta de uma teoria, ou de um sistema filosófico mais ou menos engenho­so. Tudo quanto dissemos foi recebido dos próprios Espíritos; eles é que foram interroga­dos e muitas vezes nos responderam de modo contrário às nossas anteriores convicções. Fizemos com os Espíritos o que um anatomista faria para investigar o corpo humano: le­vamos o escalpelo da investigação a inúmeros seres; não nos contentamos de fazê-los falar - sondamos todos os refolhos de sua existência, tanto quanto nos era dado fazê-lo; seguimo-los desde o instante em que exalavam o último suspiro na vida corpórea até o momento em que a ela voltavam; estudamos a sua linguagem, seus costumes, seus hábi­tos, suas idéias e seus sentimentos, como o médico que escuta as pulsações do doente e nesta clínica moral onde todas as fases da vida espiritual passaram sob os nossos olhos, observamos e comparamos. Vimos, de um lado, as chagas horríveis, mas do outro, tam­bém, grandes motivos de consolação. Ainda uma vez, não fomos nós que imaginamos todas essas coisas: foram os Espíritos que a si mesmos se pintaram. 
Ora, para quem quer que deseje entrar em contato com eles, importa bem conhecê-los, a fim de estar em condições de lhes apreciar a situação e de melhor compreender sua linguagem que, sem isto, poderia, às vezes, parecer contraditória. Por isso nos alongamos um tanto neste capítulo.

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