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terça-feira, 24 de novembro de 2015

FEEB

Ampliando a Consciência da Imortalidade é o tema do ano da FEEB

 AMPLIANDO A CONSCIÊNCIA DE IMORTALIDADE1
                                                                                     

                                                                                                                    André Luiz Peixinho


RESUMO: após constatar o esgotamento do materialismo e enumerar os problemas dele decorrentes, o texto situa o Espiritismo como o grande elemento de superação daquela cosmovisão. Fundamentando-se em reflexões presentes em obras básicas do Espiritismo e da sabedoria universal, além da literatura espírita subsidiária, o texto propõe maneiras de superar a visão materialista, mediante a reformulação de crenças e a aquisição de hábitos específicos. Esses hábitos de aprimoramento envolvem (i) a desidentificação, por parte do indivíduo, de atributos e formas com que se manifesta ao longo do processo evolutivo; (ii) a autodisciplina em seus aspectos físico, emocional e mental, tornada hábito mediante exercício e repetição; (iii) a experimentação e a experienciação do mundo espiritual e (iv) o desenvolvimento de um sentido de percepção profundo da divindade, mediante a conquista da “pureza de coração” e competências espirituais correlatas. O texto indica ainda que estas propostas sugerem formas de organização das atividades do centro espírita.


1. Introdução
Consta dos escritos de Allan Kardec que uma das principais tarefas do Espiritismo é destruir o materialismo2. Embora este último, como visão de mundo, ofereça grandes vantagens à civilização no plano da sobrevivência, do conforto e dos prazeres materiais, não resolve o drama humano centrado na finitude e na angústia da morte. Para manter-se coerente, o materialismo estimula o consumismo, o egocentrismo, a competição. Ao reduzir todos os fenômenos existenciais à manifestação da matéria, mesmo aqueles conhecidos como paranormais, nega qualquer possibilidade de transcendência material, de vida após o decesso físico, de espiritualidade plena. Tal concepção restringe o sentido da vida a uma autorrealização transitória, através da vida sensorial e intelectiva comum, oferecendo no máximo uma transcendência de si mesmo através de um humanismo empobrecido.
 

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1 Este texto, redigido em 19 de janeiro de 2015, integra uma série de escritos produzidos com o objetivo de orientar teórica e pedagogicamente as ações da Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB), no ano de 2015, cujo tema central coincide literalmente com o título do texto.
2 Veja-se, por exemplo, o item “utilidade prática das manifestações”, no capítulo 1 da obra O que é o Espiritismo.


                             A posição de Kardec é antecipada pela declaração de um guia espiritual da época, que anunciou uma invasão organizada dos espíritos no auge do sucesso materialista. E isto ocorreu, levando o mestre lionês a concluir que o Espiritismo caminhará com os homens, sem os homens e apesar dos homens.
                            Decorridos um século e meio, constatamos que a sociedade cada vez mais parece imbuída de uma concepção materialista, ao negar progressivamente antigas lições espirituais, religiosas e filosóficas, e se deleitar com os avanços tecnológicos. E por desconhecer realidades espirituais, centra-se na busca das posses materiais, da exaltação da juventude corporal, ou desce os despenhadeiros comportamentais através do uso de drogas. Persistentemente, luta por direitos pessoais, mantém preconceitos de raça, cor, sexo, religião, além de experimentar a afirmação de seu poder, mediante a destruição individual ou coletiva dos outros.
                           Em nosso entendimento, o materialismo é forte no mundo porque a consciência do ser espiritual é frágil, incipiente e muito restrita a algumas pessoas e momentos existenciais. Em outras palavras, o mundo reflete e reforça nosso estágio de consciência.
                          Isto é compreensível numa perspectiva evolucionista espírita, pois os orientadores espirituais asseveram que o princípio inteligente, criado por Deus, mergulhou na matéria para intelectualizá-la, afirmando inclusive que tudo na natureza se encadeia, do átomo ao arcanjo, que começou no átomo3. Isto equivale a dizer que somos seres espirituais manifestando nosso potencial através das formas materiais em crescente evolução, ampliando a consciência através dos reinos da natureza: mineral, vegetal, animal e humano. E se estamos ainda vivendo a experiência corporal, dando-lhe maior prevalência, é porque não expressamos plenamente nosso potencial de criação divina e de princípio inteligente do universo. Traduzir no plano das formas materiais este potencial é praticar o esforço evolutivo em direção à angelitude.
                          O Espiritismo não pretende retirar o indivíduo do mundo, nem privá-lo dos sucessos tecnológicos. Afinal de contas, isolado, o indivíduo estiola-se e, desprezando os avanços do mundo material pura e simplesmente, perde oportunidade e tempo de se dedicar à verdadeira autorrealização espiritual; porém, entre este extremo eremítico e a hegemonia dos apelos do mundo materialista ‒ a busca de felicidade material ‒, vai uma grande distância.
                          Para atender ao objetivo espírita de superar a fase materialista da consciência, transcendendo-a e aproveitando-a mediante uma inclusividade autêntica, podemos, com base no conhecimento espírita, delinear algumas propostas e atividades decorrentes, conforme veremos nas seções seguintes.

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3 Cf. resposta à pergunta 540 de O Livro dos Espíritos.


                        2. Conhecer a si mesmo enquanto ser imortal, transcendente à           matéria,         potência divina, essência


                                 Este conhecimento nos trará a percepção de que estamos num corpo, possuímos um veículo de manifestação modelador – o perispírito – mas não somos nenhum dos dois. Ambos são criações evolutivas, nossas dependentes, mutáveis, transitórias. Pertencem portanto ao mundo da impermanência, e nele está contido todo o mundo materialista. E mesmo o mundo espiritual ou erraticidade é uma construção nossa, adaptada às nossas necessidades evolutivas transitórias.
                                Para alcançar tal objetivo – a consciência de si mesmo enquanto essência – precisamos exercitar nossa capacidade de desidentificação das formas que geramos como espíritos para nos manifestar no mundo e superarmos as leis que o regem, principalmente aquelas referentes ao espaço e ao tempo. Assim reconheceremos distintamente o que temos – corpo e perispírito – do que realmente somos: espíritos. Afirmando que “não há progresso possível sem observação atenta de nós mesmos”, Léon Denis (1987, p. 355-371) recomenda algumas práticas de autoaprimoramento:
                 i. Controlar o físico – “Primeiramente, regular a vida física, reduzir as exigências materiais ao necessário, a fim de garantir a saúde do corpo, instrumento indispensável para o desempenho de nosso papel terrestre.”
                 II. Regular as emoções – “(...) disciplinar as impressões, as emoções, exercitando-nos em dominá-las, em utilizá-las como agente de nosso aperfeiçoamento moral; aprender principalmente a esquecer, a fazer o sacrifício do ‘eu’, a desprender-nos de todo o sentimento de egoísmo.                                                                    III. Ordenar e elevar o pensamento – Ao situar o pensamento como causa primordial de nossa elevação e de nosso rebaixamento, elemento que engendra “todas as descobertas da Ciência, todas as maravilhas da Arte, mas também todas as misérias e todas as vergonhas da Humanidade”, Denis conclui não haver “assunto mais importante que o estudo do pensamento, seus poderes e ação”. Observa que “... refletimos os mil pensamentos incoerentes do meio em que vivemos. Poucos homens sabem viver do próprio pensamento, beber nas fontes profundas, nesse grande reservatório de inspiração que cada um traz consigo, mas a maior parte ignora”. Por fim, convida a “aprender a fiscalizar os pensamentos, a discipliná-los, a imprimir-lhes uma direção determinada, um fim nobre e digno”.


                   Essas “fontes profundas”, presentes na alma, contêm “potências ocultas”, que “esperam nosso chamamento para emergirem e aparecerem”, e podem ser alcançadas pela meditação: “Se meditarmos em assuntos elevados, na sabedoria, no dever, no sacrifício,
 

                   Nosso ser impregna-se, pouco a pouco, das qualidades de nosso pensamento”. O autor acrescenta que “na meditação o espírito se concentra, volta-se para o lado grave e solene das coisas: a luz do mundo espiritual banha-o com suas ondas”.


                   A busca da consciência de espírito é também referendada por Joanna de Ângelis (2008), que, assim como Léon Denis, reafirma o poder da meditação, asseverando que “O empenho de manter a atenção – que observa –, a concentração – que fixa – e a meditação – que completa o equilíbrio psicofísico – tornam-se a ponte de união entre a consciência superficial e o Eu profundo (...)”.


                   A mentora destaca também destaca a importância da geração de automatismos superiores:
 “A repetição de atos gera hábitos e estes tornam-se memórias, que passam a funcionar automaticamente.” (ibid., p. 73-74)


 “Se eleges hábitos mentais de discernimento para o correto, agirás com segurança, e essas memórias funcionarão automaticamente, amadurecendo-o intelectiva e afetivamente, com este comportamento oferecendo-te consciência de ti mesmo, identificação com o teu EU profundo.” (id.)


                    Progressivamente, alcançaremos o estágio de percepção dos nossos veículos4 como tais, desidentificando-nos deles e manejando-os conforme as necessidades e circunstâncias; ao mesmo tempo, conscientes do ser essência que somos, compreenderemos a nossa condição de imortalidade e de criaturas nascidas do Amor Divino, que transcende as barreiras do tempo e do espaço.


                   3. Reconhecer e experienciar a vida da erraticidade ou mundo espiritual


                  Embora saibamos que a informação não é suficiente para provocar os efeitos ou comportamentos dela decorrentes, ela é de vital importância na evolução. Segundo Allan Kardec, o progresso intelectual antecede o progresso moral, fato este constatado observando-se o comportamento das pessoas e populações ou através de pesquisas científicas na Psicologia.


                    Mesmo a pesquisa experimental de eventos relativos à ação dos espíritos no mundo físico não é capaz de ser convincente para todos os observadores, pois eles dependem


4 O autor refere-se aos veículos de manifestação (plano da existência) do espírito (plano da essência), longamente elaborados no processo evolutivo e que são atributos, não devendo ser confundidos com o ser que os cria e os possui. Entre esses veículos, contam-se o corpo e o períspirito ‒ em uma camada existencial mais superficial; em um nível mais profundo e “próximo” do ser essencial, contam-se a mente, as emoções e as sensações. Para uma abordagem preliminar, veja-se Peixinho (2007a; 2007b; 2007c). (Nota do Revisor).

                   Fundamentalmente da matriz paradigmática que os faz perceber e interpretar o acontecimento.
                   Em que pesem tais limitações relativas à informação e à interpretação dos eventos, o contato com leituras e experimentos pode ser uma primeira aproximação da realidade do mundo espiritual. Assim começa um processo de experimentação de algo além dos cinco sentidos.
                    As pesquisas do chamado período metapsíquico contribuíram para o questionamento do paradigma materialista, como podemos constatar lendo os principais autores da época, como Alexandre Aksakof, Gabriel Dellane, Epes Sargent, César Lombroso, Gustave Geley, William Crookes, entre outros. Muitas conversões ocorreram graças a tais pesquisas, particularmente a partir de eventos que envolviam informações e vivências pessoais. Entretanto, um número significativo de participantes das pesquisas psíquicas adotaram explicações que reduziam tudo a epifenômenos da matéria. Considerando que este método investigativo continua tendo o seu valor hoje, contamos com a transcomunicação instrumental, que não depende ostensivamente dos seres humanos, e as pesquisas anímico-mediúnicas.
                     Observar através de aparelhos e pessoas com faculdades específicas assemelha-se a estudar uma civilização a partir do que os seus membros conseguem trazer e causar impacto em nossa vida. Em outras palavras, significa manter-se no seu mundo, à espera que lhe convençam a partir de ações específicas que consigam romper o mapa mental dominante. Mas há outra alternativa, cujo poder de conversão parece ser maior. Trata-se da vivência ou experienciação do próprio mundo espiritual em si mesmo. Algumas práticas podem ser delineadas:


                 i. A observação da mente, isto é dos pensamentos, até discernir a sua origem, se pessoal ou extrapessoal.


                 II. O estudo através de observações sistemáticas das suas próprias capacidades paranormais, tais como a telepatia, a psicocinesia, a precognição, a premonição, a clarividência no mundo físico e outras formas incluídas no rol das interações entre a mente e a matéria.

 
                 III. O trabalho prático de conhecer o mundo espiritual através das vivências dos sonhos e dos chamados desdobramentos espirituais ou projeções astrais.

 
                 IV. A identificação em si mesmo de faculdades mediúnicas e seu grau de desenvolvimento, precisão e qualidade em “laboratórios” específicos, fartamente difundidos no meio espírita, como sessões de desenvolvimento mediúnico. Neste caso, recomenda-se seguir as instruções de Allan Kardec e Léon Denis, que continuam validadas por continuadores destes estudos, tanto entre encarnados quanto entre desencarnados.


       4. Identificar sua participação em Deus e tomar consciência da unidade fundamental


               Esta é a solução definitiva. Como afirma Paulo, o Apóstolo, em comunicação publicada em O Livro dos Espíritos, nossa vida deveria gravitar em torno de Deus5. A união com a Divindade foi divulgada por Jesus através da parábola do filho pródigo, da sua informação de que Ele era um com o Pai Celestial, bem como do seu apelo para que nEle nos uníssemos. Para nós, este estágio de consciência pode significar sentir-se espírito em plenitude. Poderíamos dizer que se trata da superação de toda separatividade, da participação na onipresença, da libertação de toda impermanência. Para buscar experienciar tal estado, é preciso:


i. Estabelecer a pureza de coração, conforme assegura Jesus, pois este estado é condição necessária para se ver a Deus em estado de bem-aventurança.
ii. Aprimorar a percepção do Universo pelo estudo das suas leis e pela contemplação, pois ‘‘o Ser Supremo não existe fora do mundo, porque este é sua parte integrante e essencial. Ele é a Unidade central onde vão desabrochar e se harmonizar todas as relações”; “O Universo oferece-nos o espetáculo de uma evolução incessante, para a qual todos concorrem, da qual todos participam. A essa obra gigantesca preside um princípio imutável.” (DENIS, 1989, p. 119).
iii. Desenvolver novos estados de consciência. Segundo Léon Denis, a consciência sensorial nos faz perceber Deus como múltiplo; fazemos deuses todas as forças da Natureza: “assim nasceu o Politeísmo”. Visto pela inteligência, Deus é espírito e matéria; daí o dualismo. À razão esclarecida, ele é alma, espírito e corpo, forjando-se assim as religiões trinitárias, como o Hinduísmo e o Cristianismo. “Percebido pela vontade, faculdade soberana que resume todas as outras, compreendido pela intuição íntima (...), Deus é Uno e Absoluto.” (ibid., p. 122-123).


5. Consideração final: uma proposta de ação


Estas reflexões apontam para variadas formas de organização das atividades no Centro Espírita e, à medida que forem aplicadas, poderemos avaliar nosso trabalho na construção de comunidades de espíritos encarnados mais conscientes de sua condição de seres espirituais, vivendo uma experiência humana.


REFERÊNCIAS
ÂNGELIS, Joanna de. Consciência e Hábitos. In:______ Momentos de Consciência. 3.ed. Salvador:
5 Cf. parte IV, capítulo 2.
7
LEAL, 2008. cap. 12. Psicografia de Divaldo Pereira Franco.
DENIS, Léon. A disciplina do pensamento e a reforma do caráter. In:______ O problema do ser, do
destino e da dor. 14.ed. Brasília: FEB, 1987. cap. XXIV.
_______. O Universo e Deus. In:______ Depois da morte. 15.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1989. cap.
IX.
PEIXINHO, André Luiz. O despertar do espírito. In:_____ A face eterna do ser. 1.ed. Salvador:
Fundação José Petitinga, 2007a. cap. 17.
_______. Consciência de ser espírito. In:_____ A face eterna do ser. 1.ed. Salvador: Fundação José
Petitinga, 2007b. cap. 18.
_______. Essência, existência e evolução. In:_____ A face eterna do ser. 1.ed. Salvador: Fundação
José Petitinga, 2007c. cap. 58

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