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segunda-feira, 23 de maio de 2016

SUICÍDIO POR AMOR - REVISTA ESPÍRITA - 396 Problemas Morais

57 Havia sete para oito meses que Luís G..., oficial sapateiro, namorava uma jovem, Victorine R..., com a qual em breve deveria casar-se, já tendo mesmo corrido os proclamas do casamento. Neste pé as coisas, consideravam-se quase definitivamente ligados e, como medida econômica, diariamente vinha o sapateiro almoçar e jantar em casa da noiva.                         Quarta-feira passada, ao jantar, sobreveio uma controvérsia a propósito de qualquer futilidade, e, obstinando-se os dois nas opiniões, foram as coisas a ponto de Luís abandonar a mesa, protestando não mais voltar. Apesar disso, no dia seguinte, muito embaraçado, veio pedir perdão. 
                     A noite é boa conselheira, como se sabe, mas a moça, prejulgando talvez pela cena da véspera o que poderia acontecer quando não mais houvesse tempo para remediar o mal, recusou-se à reconciliação. Nem protestos, nem lágrimas, nem desesperos puderam demovê-la. 
                  Muitos dias ainda se passaram, esperando que sua amada fosse mais razoável, até que resolveu fazer uma última tentativa: – Chegando a casa da moça, bateu de modo a ser reconhecido, mas a porta permaneceu fechada; recusaram abrir-lha. Novas súplicas do repelido; novos protestos, não ecoaram no coração da sua pretendida. “Adeus, pois, cruel! – exclamou o pobre moço – adeus para sempre. Trata de procurar um marido que te estime tanto como eu.” Ao mesmo tempo a moça ouvia um gemido abafado e logo após o baque como que de um corpo escorregando pela porta. 
               Pelo silêncio que se seguiu, a moça julgou que Luís se 
57 N. do T.: Vide em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, Segunda Parte, capítulo V, o artigo: Luís e a pespontadeira de botinas. 
397 SETEMBRO D E 1858 assentara à soleira da porta, e protestou a si mesma não sair enquanto ele ali se conservasse. Decorrido um quarto de hora é que um locatário, passando pela calçada e levando luz, gritou espantado e pediu socorro. 
                  Logo os vizinhos chegaram; abrindo também a porta, a Srta. Victorine soltou um grito de horror ao perceber o noivo estendido no chão, pálido e inanimado. Todos se apressaram em lhe prestar socorro; cogitaram chamar um médico, mas logo perceberam que tudo seria inútil, visto como ele deixara de existir. O desgraçado moço enterrara uma faca na região do coração, e o ferro ficara-lhe cravado na ferida. 
                 Esse fato, que encontramos no Siècle, de 7 de abril último, despertou-nos a idéia de dirigir a um Espírito superior algumas perguntas sobre as suas conseqüências morais. 
 - Aqui estão, assim como as respostas que nos foram dadas pelo Espírito São Luís, na sessão da Sociedade, no dia 10 de agosto de 1858. 

1. A moça, causadora involuntária do suicídio, tem responsabilidade? 
Resp. – Sim, porque o não amava. 
2. Então, para prevenir a desgraça, deveria desposá-lo a despeito da repugnância que lhe causava? 
Resp. – Ela procurava uma ocasião de descartar-se dele, e assim fez em começo da ligação o que viria a fazer mais tarde. 
3. Neste caso, a sua responsabilidade decorre de haver alimentado sentimentos dos quais não participava e que deram em resultado o suicídio do moço? 
Resp. – Sim, exatamente. 
4. Mas então essa responsabilidade deve ser proporcional à falta, e não tão grande como se consciente e voluntariamente
 REVISTA ESPÍRITA 398 houvesse provocado o suicídio... 
Resp. – É evidente. 
5. E o suicídio de Luís tem desculpa pelo desvario que lhe acarretou a obstinação de Victorine? 
Resp. – Sim, pois o suicídio oriundo do amor é menos criminoso aos olhos de Deus, do que o suicídio de quem procura libertar-se da vida por motivos de covardia. Observação – Dizendo que este suicídio é menos criminoso aos olhos de Deus, isso significa, evidentemente, que há criminalidade, embora em menor grau. A falta consiste na fraqueza que ele não soube vencer.
                    Era, sem dúvida, uma prova a que sucumbiu. Ora, os Espíritos nos ensinam que o mérito consiste em lutar vitoriosamente contra as provas de todos os gêneros, que são a própria essência da vida terrena. 
                     Ao Espírito Luís G..., evocado mais tarde, foram feitas as seguintes perguntas: 1. Que julgais da ação que praticastes? 
Resp. – Victorine era uma ingrata, e eu fiz mal em suicidar-me por sua causa, pois ela não o merecia.
 2. Então não vos amava? 
Resp. – Não. A princípio iludia-se, mas a desavença que tivemos abriu-lhe os olhos, e ela até se deu por feliz achando um pretexto para se desembaraçar de mim.
 3. E o vosso amor por ela era sincero? 
Resp. – Paixão somente, creia; pois se o amor fosse puro eu me teria poupado de lhe causar um desgosto.
 4. E se acaso ela adivinhasse a vossa intenção persistiria na sua recusa? 399 SETEMBRO D E 1858
 Resp. – Não sei, penso mesmo que não, porque ela não é má. Mas, ainda assim, não seria feliz, e melhor foi para ela que as coisas se passassem de tal forma.
 5. Batendo-lhe à porta, tínheis já a idéia de vos matar, caso se desse a recusa? 
Resp. – Não, em tal não pensava, porque também não contava com a sua obstinação. Foi somente à vista desta que perdi a razão. 
6. Parece que não deplorais o suicídio senão pelo fato de Victorine o não merecer... É realmente o vosso único pesar? 
Resp. – Neste momento, sim; estou ainda perturbado, afigura-se-me estar ainda à porta, conquanto também experimente outra sensação que não posso definir. 
7. Chegareis a compreendê-la mais tarde? 
Resp. – Sim, quando estiver livre desta perturbação. Fiz mal, deveria resignar-me... Fui fraco e sofro as conseqüências da minha fraqueza. A paixão cega o homem a ponto de praticar loucuras, e infelizmente ele só o compreende bastante tarde.
 8. Dizeis que tendes um desgosto... qual é?
 Resp. – Fiz mal em abreviar a vida. Não deveria fazê-lo. Era preferível tudo suportar a morrer antes do tempo. Sou, portanto, infeliz; sofro, e é sempre ela que me faz sofrer, a ingrata. Parece-me estar sempre à sua porta, mas... não falemos nem pensemos mais nisso, que me incomoda muito. Adeus.

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