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domingo, 16 de abril de 2017

A Pascoa na visão espirita


CORREIO ESPÍRITA | Cláudio Sinoti
“É que nós temos um buraco emocional, que nos faz exigir demais dos outros… a nossa carência é tamanha que não nos contentamos com o que o outro pode nos oferecer, queremos e exigimos dele sempre mais e mais…”
Esse trecho é o resumo de um diálogo entre duas irmãs narrado por uma paciente que gentilmente concedeu permissão para compartilhar um pouco da sua história. Ela estava prestes a operar da vista e encontrava-se apreensiva quanto aos procedimentos que teria que passar. Há algum tempo começou a observar pontos obscuros na visão e depois teve diagnosticada uma “erosão na retina” que, se não cuidada, poderia levá-la a perder a visão. Sem adentrar pelas características técnicas da patologia, que fogem ao nosso propósito, ela explicava ser “um buraco na vista” que precisaria ser preenchido para voltar a enxergar.
Muitas vezes as feridas emocionais fazem com que vejamos a vida de forma distorcida, e por conta do ego nem sempre preparado para lidar com essas feridas, buscamos substitutos para lidar com o vazio decorrente, muitas vezes através de comportamentos compensatórios.
No caso da paciente, o uso da razão passou a ser o seu aliado principal ao longo da vida. Tornou-se uma profissional muito bem-sucedida, referência no país e no exterior. Destacou-se mais do que todos na família, e era bastante intensa em sua produtividade. Mas uma crise depressiva veio retirá-la por um tempo da “batalha”.
Foi a forma que a psique encontrou de fazer com que prestasse atenção em partes importantes que havia deixado para trás em sua jornada, enquanto priorizava as conquistas alavancadas pela razão. Necessitava resgatar sua vida emocional, que vivia crises constantes e afetava sobremaneira seus relacionamentos: quando estes conseguiam se sustentar, iam de mal a pior. Exigia demais dos outros, e era difícil aceitá-los nas suas limitações. É difícil aceitar a sombra do outro quando não aceitamos a nossa própria.
A parada foi a oportunidade de fazer uma busca diferente. Aproximou-se mais da religião, buscou o auxílio da terapia e da psiquiatria e ampliou os cuidados com a saúde. Começou a olhar de forma consciente para o passado, tentando refazer a trilha da vida e encontrar respostas para suas crises. Reviu relações familiares, abandonos, violência, mas também reconheceu os limites de cada personagem nessa trilha. Descobriu que todos, em sua história, também possuíam suas feridas, e que o mais importante era resolver crescer com e apesar delas.
Durante a turbulência, passou a viver algo mágico e novo: tornou-se mãe adotiva. E uma das maiores preocupações era “não errar com a filha como haviam feito com ela”. Mas no caminho da vida nós “erramos”, assim como “erram conosco”, o que é natural por conta das nossas limitações, em muitos sentidos. Mas isso não pode servir como desculpa para não trilharmos o caminho da vida e enfrentar os desafios naturais que ela nos apresenta. O amor maternal, desenvolvido por escolha própria, impulsionou ainda mais sua busca interna.
Parte dessa trilha exige que construamos novas lentes de ver e perceber a vida. Afinal, como já dizia o poeta da alma Rubem Alves: “o ato de ver não é coisa natural; precisa ser aprendido.”
Recorrendo ao olhar simbólico da psicossomática, aprendemos que a psique manifesta no corpo os seus sintomas, como forma de nos fazer prestar a devida atenção a eles. Assim sendo, a cirurgia nos olhos torna-se parte simbólica do tratamento que ela busca para alma, e o preenchimento do “buraco” nos olhos é comparável ao que vem fazendo na terapia e na vida como um todo, esforçando por se compreender e aprimorar o relacionamento consigo mesma e, como consequência, começa a sentir que o relacionamento com os outros também se aprofunda.
Seus “olhos de ver” estão se ampliando, embora ainda oscile emocionalmente em alguns momentos, o que é natural face ao tempo em que permaneceu distante de si.
E como bem disse o poeta Gilberto Gil, é necessário encontrar as “lentes do amor” para que a cura se efetive: “Abrir o ângulo, fechar o foco sobre a vida. Transcender pela lente do amor. Sair do cético, encontrar um beco sem saída. Transcender pela lente do amor”.
Não foi à toa que o maior psicoterapeuta de todos os tempos elegeu o Amor como ensinamento mais importante, e que certamente é o remédio mais poderoso para preencher os vazios da alma.

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