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domingo, 18 de fevereiro de 2018

É teu irmão!

Residiam os três, marido, esposa e filhinha, num casebre si­tuado em zona rural. O sítio era do patrão e o salário irrisório, ganho com muito suor, mal atendia às necessi­dades prementes.
Certa tarde, enquanto o chefe da casa trabalhava no cafezal distante, a mulher, trazendo a menina nos braços, aproximou-se das margens de largo rio, à procura de arbustos medicinais. No barranco alto foi acometida de vertigem. Mãe e filha precipita­ram-se nas águas caudalosas…
Horas mais tarde, o pobre homem, transido de dor, viu os corpos serem retirados do rio e transportados para o cemitério. Dominado pelo desespero, colheu ervas venenosas e preparou be­bida fulminante que ingeriu sem vacilar. No entanto, socorrido a tempo, foi internado num hospital onde permaneceu longos dias.
Restabelecido, não regressou à fazenda. Desorientado, assumiu a condição do viajor intranquilo, como se pretendesse fugir de si mesmo, mas sempre perseguido pela sombra da tragé­dia, incapaz de retornar à normalidade. Para agravar seus padeci­mentos, passou a sofrer estranhas convulsões, à maneira de crises epilépticas. Com semelhante mal, era sistematicamente despedido dos raros empregos que surgiam, descendo à indigência.
Um dia, esteve no Albergue Noturno, em Bauru. O assistente encarregado de orientar e confortar os viajores, que por ali transitavam ouviu o relato de sua desdita, após o que o infeliz concluiu:
— Sou um desgraçado!… Minha existência está perdida!… A saudade é fel que me amargura os dias! E as atribulações que venho sofrendo!… Tenho passado fome e sido acusado de malfei­tor!… Não quero continuar no mundo!…
Notando que a perigosa ideia de auto aniquilamento o estava rondando, o assistente comentou a loucura do suicídio e suas funestas consequências para quem entra por essa porta falsa. Mostrou-lhe magnífico desenho mediúnico de Jesus, que havia no refeitório, e o exortou a confiar no Mestre Supremo. Falou-lhe longamente, envolvendo-o e vi­brações balsâmicas e alentadoras de sincera compaixão. O ex-sitiante ouviu atento, contemplou a figura do meigo Rabi e, sentindo-se possuído de novo ânimo, ponderou:
— O senhor tem razão… É um pecado desesperar-se as­sim, quando o Filho de Deus, que tanto sofreu, nunca perdeu a coragem. É que a gente é fraca e há momentos em que tudo fica tão escuro, parece tão difícil, que só se pensa em loucuras. Muito obrigado por suas palavras. Deus o abençoe pelo conforto que me proporcionou. Sabe moço? Eu tenho muita fé em Jesus. Ele há de ajudar-me a encontrar um caminho…
Experiências dolorosas como a desse homem advertem-nos de que, diante da adversidade, a inconformação e o desespe­ro são agentes terríveis que complicam o destino.
Certamente fazia parte do quadro de suas provações a perda da esposa e da filha em tão trágicas circunstâncias. Eram naturais o sofrimento intenso e a angústia da separação. Mas, fal­tando-lhe no momento crucial a confiança plena nos desígnios divinos, perdeu o controle de si mesmo e tentou desertar da vida.
A partir de então, começou a sofrer as convulsões, fruto da extremada excitação a que se entregou, a qual, agravada pela tentativa de suicídio, terá favorecido o assédio de entidades infe­riores e a evolução de distúrbios nervosos que abriram campo à epilepsia. Daí à indigência foi um passo.
— A provação foi muito grande! — dirá alguém.
Todavia, uma das primeiras lições que a Doutrina Espí­rita ensina é que Deus não nos sujeita a sofrimentos superiores às nossas forças, e, se santos não somos, estejamos certos de que teremos programado atribulações que chegarão no tempo certo, por ensejo de resgate e reajuste. Então testemunharemos nossa confiança no Pai celeste, nossa crença, nossa fé.
E aquele homem, onde estará agora? Bem, no dia seguinte deixou o albergue e talvez fosse o visitante humilde que nos soli­citou a bênção de uma refeição, quando fechamos a porta, após comunicar-lhe que não havia sobras…
É possível que fosse a figura solitária e triste que desejava uma informação na via pública, quando estugamos o passo, fin­gindo ignorá-lo… Quem sabe fosse o infeliz de pernas trôpegas que caiu pe­sadamente à nossa frente, quando nos desviamos, sem cogitar de socorrê-lo… Julgando apressadamente, justificamos a própria omissão proclamando:
— Ora, é um vagabundo!… É um malandro!… É um alcoólatra…

E Jesus, em quem ele disse confiar? Jesus, de quem espera­va amparo? Jesus, que era sua esperança?
Jesus era aquela voz que no íntimo de nosso coração suplicava:
— Atende-o! É teu irmão!

Richard Simonetti

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