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domingo, 17 de junho de 2018

A corrupção nossa de cada dia

Um rato, olhando pelo buraco na parede, viu o fazendeiro e a mulher abrindo um pacote.
Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.
Correu ao pátio advertindo a todos:
– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!
A galinha, disse:
– Desculpe-me, Sr. Rato. Eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até o porco e lhe disse:
– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
– Desculpe-me, Sr. Rato, disse o porco. Mas, não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar.
Fique tranquilo. O senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se, então, à vaca. Ela, num muxoxo, disse:
– Uma ratoeira? Isso não me põe em perigo.
Então, o rato, cabisbaixo, voltou para a casa para encarar a ratoeira.
E naquela noite, ouviu-se um barulho!
Meu Deus, era a ratoeira pegando sua vítima!
A mulher do fazendeiro correu para ver o que estava lá.
No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou, imediatamente, ao hospital. Ela voltou com febre.
Para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente foi ao funeral.
Para alimentar todo aquele povo, o fazendeiro, então, sacrificou a vaca!
* * *
Essa estória chama nossa atenção sobre as pequenas ações diárias que julgamos insignificantes, mas que “premia”, antes de tudo, nós mesmos.
Colocamos, via de regra, nossos interesses, desejos e necessidades em primeiro lugar.
Isso é egoísmo.
Eis que nos flagramos com as frases nossas de cada dia:
– A vida me ensinou a não chorar por nada que não possa chorar por mim!
– A farinha é pouca, o meu pirão primeiro!
– Faço tudo que puder por mim, e o que sobrar você distribui para os que estiverem a minha volta!
– Estou pouco ligando para ele!
– Antes ele do que eu (frase quando uma pessoa sofre um acidente).
Longe dos holofotes de Brasília, verifica-se que os mesmos princípios éticos são violados, diariamente, por milhões de cidadãos comuns:
“Quando um consumidor de energia opta por fazer um ‘gato’ (uma ligação clandestina à rede elétrica) ou adulterar o medidor de energia, ele emprega o mesmo raciocínio do político corrupto: ‘Vou levar vantagem e os demais nem vão perceber’. Engana-se quem pensa que essas pequenas contravenções atingem apenas a concessionária de energia. A principal vítima desses crimes são os consumidores honestos, que precisam arcar com tarifa mais alta para cobrir, parcialmente, o rombo deixado pelos contraventores.” (1)
“Em pleno centro de São Paulo, a maior cidade do país, é possível comprar diplomas falsos que permitem a participação em concursos públicos e, mais comum ainda, atestados médicos, para justificar ausências mais prolongadas no trabalho. Também é possível, sem nem mesmo sair de casa, ‘roubar’ o sinal da TV à cabo do vizinho, sem que ele saiba, ou comprar um aparelho decodificador de sinal pela própria internet e usá-lo para sempre sem ter que pagar mensalidade às operadoras, que, afinal, ‘cobram muito caro’. A prática é tão institucionalizada que tem até nome: ‘o gato net’.” (2)
Na singela e ilustrativa estória do rato, constatamos que nossas ações não só repercutem e atingem outras pessoas, mas também a nós mesmos.
Ninguém leva vantagem quando pensa somente em si. Imaginar o contrário é pura ilusão.
“O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade humana. Digo mais: não haverá segurança.” (3)
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando há uma ratoeira na casa, toda a fazenda corre risco.
Fernando Rossit
Referências Bibliográficas:
(1)https://oglobo.globo.com/opiniao/a-corrupcao-nossa-de-cada-dia-20679751
(2) https://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/04/sociedad/1386197033_853176.html
(3) Blaise Pascal – O Evangelho Segundo o Espiritismo.

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