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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A INFLUÊNCIA DA ESPIRITUALIDADE NA RECUPERAÇÃO DE DEPENDENTES QUÍMICOS Giselle Caroline Fuchs

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Este artigo retrata parte dos resultados de uma pesquisa que teve como objetivo caracterizar a influência da espiritualidade na recuperação de dependentes químicos. O estudo de metodologia qualitativa realizou-se com 10 homens que fizeram o programa de recuperação à dependência química na Associação Terapêutica Novo Amanhecer – ATENA. Os mesmos estavam em abstinência desde o momento do programa de recuperação até o dia da entrevista semi-estruturada. Constatou-se que após participação em programa de recuperação para usuários de álcool/drogas todos tiveram mudanças na espiritualidade, uma vez que aprenderam entrar em contato consigo, desenvolvendo-a. Percebeu-se ainda que existe a possibilidade de utilizar a própria espiritualidade dos pacientes como recursos que visam atingir objetivos terapêuticos ligados a promoção de saúde na recuperação de dependentes químicos. 
O pensamento pós-moderno abriu a possibilidade de entender a religião e a espiritualidade como aspectos importantes na experiência humana, uma vez que para algumas pessoas a religião é parte integrante de suas vidas e experiências cotidianas (SAVIO e BRUSCAGIN; 2008). Isso acontece porque a espiritualidade está inserida na cultura e no cotidiano de muitas pessoas, pois quando se encontram em situações de risco, de perdas, medo, doenças, estressantes ou traumáticas e de agradecimentos se voltam para sua crença, fé, independente de sua religião.  

 Assim, a espiritualidade, pode ser considerada como uma forma de expressão religiosa, no relacionamento com Deus em atividades solitárias, estando ligadas as vivências do indivíduo, não necessitando necessariamente estar ligada a uma religião ou crença específica (SOCCI, 2006). 

Para as pessoas que acreditam em Deus as convicções espirituais dão aos valores um poder a mais para influenciar a vida, uma vez que as realidades e as experiências espirituais podem tornar os comportamentos humanos diferentes, influenciando na identidade, na ação e no estilo de vida dos seres humanos, já que os valores religiosos podem oferecer estrutura de referencia aos comportamentos. “Os valores espirituais ajudam a enraizar os valores de saúde mental em termos dos universais, e a perspectiva espiritual torna mais fácil de estabelecer uma estrutura moral de referência, porque vê o mundo em termos de ser carregado de valores” (SAVIO e BRUSCAGIN, 2008, p. 24). 

Com isso, percebe-se que os aspectos culturais e espirituais se inter-relacionam e ambos contribuem para a formação dos valores e da identidade do indivíduo. Tudo isto faz parte da história de vida de cada pessoa, que poderá contribuir de maneira positiva ou negativa no momento de responder aos estímulos internos e externos. Em meio a estes aspectos que estão contidos na vida do indivíduo encontra-se também as crenças pessoas, que são as formas que se vê o mundo e os momentos da vida. Neste sistema compreende-se ainda os valores, convicções, atitudes, vieses e suposições que unidas formam as possíveis respostas emocionais, de decisões e guiam as ações (SAVIO e BRUSCAGIN, 2008). 

Assim, a espiritualidade influencia na forma como os indivíduos podem lidar com as adversidades, com as experiências de dor e sofrimento, no que é visto como um problema e perceber o significado dos sintomas, uma vez que estas influencias surgem das heranças familiares, do sistema de crenças pessoais, rituais e da prática da mesma (SAVIO e BRUSCAGIN, 2008).    

Segundo os mesmos autores, na formação da identidade há a adoção de valores que antecipa o senso de direção e na formação da auto-imagem, integrando assim, ideias sobre si próprio e sobre os outros. Neste sentido, a religiosidade pode influenciar na saúde mental os indivíduos prescrevendo e proibindo comportamentos do cotidiano, como por exemplo, estimular os comportamentos saudáveis e no estilo de vida, fazendo a pessoa pensar sobre sua forma de comer, beber, conduzir automóveis, ter relações sexuais, uso de substâncias licitas e ilícitas, seguimento de prescrições médicas, educação dos filhos e relacionamento conjugal. 

Também oferece apoio social, podendo ser utilizado como suporte psicossocial, uma vez que as pessoas se sentem pertencendo a um grupo, e isto facilitará a adesão a programas de promoção à saúde.  

Assim, as crenças religiosas fornecem apoio através do reforço da aceitação, resistência e resiliência, gerando paz, auto-confiança, perdão a si próprio e as demais pessoas, doação e auto-imagem positiva. Em contrapartida, pode também estar ligada a auto-crítica, gerando culpa, dúvida, ansiedade e depressão. 

Desta forma, a crença religiosa gera lócus de controle favorecendo a saúde física, já que lócus de controle é uma expressão que surge a partir da teoria de aprendizagem social e tenta entender por que as pessoas lidam de maneira diferente em relação ao um mesmo problema (MOREIRA-ALMEIDA, LOTUFO NETO e KOENIG, 2006). 

Com isso, percebe-se que o enfrentamento religioso pode ser positivo ou negativo. É positivo quando ligado ao fato de envolver comportamentos e em encontrar lições em Deus para os momentos estressantes, fazer o que lhe cabe e deixar o restante nas mãos de Deus, busca de ajuda de membros do clero ou da igreja, busca na religião encontrar um novo rumo para sua vida quando o antigo não é viável, e ainda apóia e conforta espiritualmente as outras pessoas. 

Já o enfrentamento negativo está nas atitudes passivas que as pessoas depositam em relação a Deus, esperando que o mesmo controle a situação, vê o estresse como um castigo divino ou um ato demoníaco e por isso levantam questionamento em relação ao amor de Deus (PANZINI e BANDEIRA, 2005). 

Os mesmos autores perceberam que as práticas religiosas ajudam a manter a saúde e a prevenir doenças. Entre elas, a mais praticada é a meditação, uma vez que pode gerar mudanças de personalidade, maior auto-conhecimento, diminuir tensão, ansiedade, autoacusação e fornece estabilidade emocional. 

A meditação auxilia principalmente em ataques de pânicos, transtorno de ansiedade, depressão, insônia, estresse, dores crônicas e na diminuição do uso de drogas. Outros tipos de rituais religiosos provocam alterações de consciência, produção da catarse1, estado dissociativo2 e ambiente apropriado para auxiliar na expressão de estresse e de outros problemas e sofrimentos. 

 Existem pesquisas que mostram que a religiosidade e a espiritualidade estão relacionadas à saúde física e mental, na redução do índice de suicídio, uso/abuso de drogas e/ou álcool, na delinquência e na depressão. Da mesma forma, aumentando o bem-estar e a longevidade dos indivíduos que dela utilizam (MOREIRA-ALMEIDA et al., 2006; SANCHEZ e NAPOO, 2007; 2008; PANZINI, ROCHA, BANDEIRA e FLECK, 2007; PANZINI e BANDEIRA, 2005).   

Com isso, percebe-se hoje que o maior envolvimento religioso está relacionado às baixas taxas de uso e abuso de álcool e drogas, pois Moreira-Almeida et al. (2006), constataram uma menor prevalência de depressão, transtornos de ansiedade, comportamento anti-social, uso de nicotina, álcool e abuso de drogas entre os religiosos ou espiritualizados. 

Existem ainda, estudos realizados por Sanchez e Nappo (2008), que apontam a religiosidade como protetora ao consumo de drogas entre as pessoas que frequentam a igreja regularmente, que praticam os preceitos religiosos, crêem na importância a religião e que tiveram educação religiosa na infância. 

Assim, a religiosidade aparece como um auxílio aumentando o otimismo, pois os praticantes recebem suporte emocional, desenvolvendo a resiliência, diminuindo o estresse e os níveis de ansiedade e também auxiliando na re-socialização, uma vez que se tem uma nova rede de amigos e ocupação para o tempo livre através de trabalhos voluntários. 

Existem ainda alguns casos onde se proporciona atendimento psicológico individual, valorização das potencialidades individuais e apoio dos líderes religiosos sem julgamento, o que auxilia na formação de uma nova estrutura familiar, facilitando, assim, a recuperação e diminuindo o índice das recaídas. 

Henning (2009) afirma que no tratamento psicológico a religiosidade está usualmente ligada à promoção de saúde, mas que também pode ser utilizada pelo paciente como algo que dificulta a mesma, principalmente quando ela é usada como um mecanismo de defesa para manter sintomas individuais, ou para cultivar culpas indesejáveis e desnecessárias, aprisionando com o emprego de discursos sobre o pecado.  

Quanto às estratégias para lidar com a presença de religiosidade/espiritualidade no ambiente terapêutico, destaca-se a neutralidade do profissional ao respeitar as escolhas de quem o procura, sem influenciá-lo nisso. Ao mesmo tempo, apareceu a necessidade de buscar uma conscientização junto aos clientes/pacientes do uso que eles fazem disso em suas vidas, flexibilizando as compreensões daqueles para os quais a crença religiosa/espiritual se constitui em um empecilho para o desenvolvimento pessoal (HENNING, 2009). 

Procedimentos Metodológicos 

Esse artigo relata parte dos dados obtidos numa pesquisa de orientação qualitativa, através de uma entrevista semi-estruturada, que teve como sujeitos ex-residentes da Associação Terapêutica Novo Amanhecer – ATENA, que permaneceram no mínimo seis meses de programa terapêutico, tendo sido graduado3, e que estavam em abstinência do uso de substâncias psicoativas desde o encerramento do programa terapêutico, até o momento da entrevista. 

O local de realização das entrevistas variou conforme o sujeito da pesquisa, duas aconteceram na Universidade do Contestado e o restante se deu na própria ATENA. A amostragem aconteceu por saturação teórica, isto se deu a partir da oitava entrevista, onde começou a se perceber que os resultados estavam se repetindo, mas houve ainda mais duas entrevistas, totalizando 10 para que se confirma-se a saturação. Avaliação dos Resultados aconteceu com base na análise categorial temática de conteúdo, conforme o modelo proposto por Bardin (1977).         Resultados e Discussão 

Buscando evidenciar os dados coletados de forma a facilitar sua compreensão, foram estabelecidas categorias temáticas a partir da análise do conteúdo das respostas dos entrevistados, seguindo o modelo proposto por Bardin (1977). 

Assim resultaram três categorias, que tentaram nomear e agrupar núcleos de significado dos sujeitos. As categorias, por sua vez, dividem-se em subcategorias, desenvolvimentos da categoria principal, e elementos de análise, que contemplam a singularidade e os detalhes da produção de conhecimento nesta pesquisa. 

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